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    Paulo de Medeiros Silva - Uma Igreja Alternativa

Ser-se não católico num país de esmagadora maioria católica determina especificidades visíveis na generalidade das igrejas minoritárias.

Mas, pese embora essa situação comum não podemos colocar todas as igrejas não católicas dentro do mesmo saco. Há, com efeito, algumas importantes distinções que importa sublinhar. As igrejas do protestantismo histórico, (aqui designadas simplesmente como protestantes), têm diferenças muito substanciais, quer em relação ao catolicismo que, salvo raras excepções, transborda de obscurantismo, quer em relação aos neo-protestantes, (aqui designados simplesmente como evangélicos), muito próximos do moralismo asfixiante dos católicos e, ao mesmo tempo, apelando para uma vivência da religiosidade em permanente clivagem com o mundo.

As igrejas evangélicas, em regra, persistem num militantismo evidenciado por uma linguagem desusada, de cariz populista e incapaz de satisfazer quem porventura apresenta níveis de exigência mais elevados, quer no plano do pensamento e da reflexão, quer no que diz respeito a uma coerência relativamente às vivências dentro e fora da igreja. É que, neste caso, torna-se inevitável a situação de ter de assumir dois discursos, um dentro da comunidade e outro fora. Custa-me imaginar que a linguagem utilizada num contexto de uma comunidade evangélica, pentecostal, por exemplo, possa ser transportada para fora da mesma sem correr o risco de se tornar simplesmente deslocada e incompreensível. Isto obriga a uma duplicidade discursiva, com resultados perversos, traduzida nas dificuldades que tais comunidades têm em conviver com a cultura e com a modernidade. São indício de fundamentalismo e de uma mentalidade de gueto que ficou como marca histórica de um movimento protestante que só contemporaneamente tocou tangencialmente o nosso país.

Veja-se a título de exemplo o programa Caminhos que, com muito raras excepções, tem como auditório os que o fazem. Ou mesmo as campanhas evangelísticas, espaços que visam extravasar a própria comunidade e onde as conversões supostamente ocorridas não passam, muitas vezes, de transferências de pessoas de um lado para o outro mas sempre no mesmo meio evangélico. E tais transferências ocorrem com a mesma ligeireza com que se troca um par de sapatos. Na maior parte dos casos não há outra razão que o justifique que não seja o número. É que a maior obsessão dos evangélicos é o número e em muitos casos é ele que acaba por determinar as decisões. Os evangélicos convivem muito mal com o facto de serem poucos. O que aconteceu com os novos movimentos religiosos, exemplifica bem esta questão. Muitos membros activos de diversas igrejas evangélicas pequenas transferiram-se pelo aliciante do número e de uma estratégia evangelística que tudo subordina à sua lógica.

As igrejas protestantes surgem hoje cada vez mais como uma séria alternativa ao catolicismo que continua a debitar pronunciamentos lamentáveis, como o fez, prontamente, a propósito da atribuição do Nobel da Literatura. É igualmente uma alternativa a um evangelismo inculto e assente em pressupostos altamente discutíveis dos quais resulta a abdicação da reflexão e do pensamento a favor de uma vivência marcadamente emotiva e susceptível de criar dependências.

As igreja protestantes, nascidas de um contexto de livre pensamento podem mais cabalmente ser resposta para quem não aceita viver a sua fé apenas no fio da emoção, mas de uma forma reflectida e pensada. Sem hipocrisias nem dualidades discursivos.

Porque o evangelho é para todos, o crescimento põe-se como imperativo para a Igreja, mas nunca como obsessão. Isto porque o crescimento não deve visar apenas a quantidade mas a qualidade. O errado é pensar-se que se pode divorciar o crescimento numérico do crescimento espiritual. Os indicadores da vitalidade de uma comunidade não poderão, por isso, ser analisados apenas e só numa perspectiva estatística. Devem também medir-se pelo grau de convicção, de empenhamento, de formação humana, de conhecimento dos textos e da teologia subjacente, em suma de uma visão onde se evidencie uma verdadeira consciência cristã.

As igrejas protestantes, como a nossa, têm em si a semente da abertura. Lêem o mundo com a Bíblia e a Bíblia com o mundo. Assim aconteceu com os reformadores do século XVI e não pode deixar de continuar a acontecer hoje.

Para que a alternativa se afirme cada vez mais as igrejas protestantes devem resistir à tentação de aplicar receitas neo-evangelísticas, de nulos resultados e susceptíveis de descaracterizar a especificidade própria às igrejas da Reforma.

Devem esforçar-se por respeitar a teologia subjacente às concepções litúrgicas da nossa tradição.

Devem ser criteriosas na escolha de cânticos, às vezes de belo efeito, mas de inferior qualidade musical e literária. As imitações não nos fazem falta e sempre bom ter cuidado com elas.

Devem compreender que esta estratégia não tem nada a ver com evangelismos explosivos, nem isso interessa. Os resultados serão lentos mas sê-lo-ão seguros, se Deus quiser. Se isso souber fazer, a igreja contribuirá para a divulgação do evangelho a homens e mulheres pedindo-lhes apenas que o sejam de forma autêntica e verdadeira no contexto das suas próprias vivências.





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